Perdi boa parte da minha infância tendo que aturar gente rindo da minha cara, me chamando de homossexual, batendo em mim, rindo de mim sem nem ao menos eu saber por que.

Por que? Por que eu era mais novo, por que só eu tirava notas boas e a maioria que fazia isso comigo já tinha reprovado. Isso acontece o tempo todo e as pessoas que não fazem parte diretamente, indiretamente acham engraçado e ajudam a palhaçada rindo de você. Foi um tempo chato, demorei bastante tempo pra recuperar minha autoestima e a conviver socialmente sem medos.

Quando você começa a se socializar novamente e alguém começa a brincar com você e por mais inocente que seja a brincadeira você começa pensar: “poxa, vai começar tudo de novo…”.

Demora para você ter segurança de confiar nas pessoas, imagina ter autoconfiança em você?

Meus amigos que fiz jogando RPG e na minha igreja (católica) me ajudaram a passar por essa época confusa da minha vida. É sério. Ser mestre de RPG é uma função importante, as pessoas dependem de você, elas querem que você conte uma historia e isso ajuda na sua autoestima. Você se sente um máximo quando conta uma historia e as pessoas gostam e vibram enquanto jogam. Hoje em dia eu sou um completo relaxado com meus jogadores, mas isso é outra historia… :D

Já a igreja foi meu principal alicerce por muitos anos. Eu precisava de segurança e ela me dava isso. Hoje estou mais para agnóstico que católico, mas isso não diminui o valor que ela e meus amigos que tive lá influenciaram na minha vida. Hoje vejo que o grande problema na religião e nas pessoas é a falta de capacidade de dividir espaço entre a crença e bom senso.

No final, a comunidade formada de uma igreja seja ela evangélica, católica ou o que for sempre terá os mesmo problemas de relacionamento que todas tem. É ser falso consigo mesmo acreditar que a sua religião vai te salvar e as outras não.

Hoje em dia acho que fora uma timidez e a falta de um pouco de confiança que me bate em momentos de cansaço, não me rotulo mais como alguém traumatizado. Só não gosto de brincadeiras demais, principalmente sobre minha vida pessoal, ela é minha, ora bolas, não dos outros. Conquistei muita coisa e hoje sei exatamente aonde estou e para aonde vou e sei muito bem que é além de muita gente que conheci. As pessoas querem ganhar dinheiro, mas elas não querem estudar, ralar, isso é fato…

Por que estou falando sobre isso?

Minha amiga teve seu irmão espancado por muleques que trabalham em 4 lojas diferentes dentro do Shopping Carioca. Os babacas acharam que o rapaz era um daqueles fiscais que pedem propina nessa época por que a loja não emite notas fiscais… O rapaz estava comprando presentes de natal e havia acabado de sair de uma entrevista de emprego, ele estava de terno e gravata, que não sei por que ajudou eles a acharem isso…

Resumindo, o rapaz vai ser operado na cabeça por causa do espancamento. E esta sendo indiciado pelo que nem ao menos fez (e isso por que ele precisou pedir uma nota fiscal)… Eu espero que as testemunhas que ele tem sejam o bastante, ele nem ficou 1 hora no shopping e falaram que ele estava o dia inteiro lá.

Nessas horas eu lembro daquilo que passei naquela época, ser acusado de algo que não se é com certeza é muito desagradavel e no caso dele nossa, foi muito, muito pior. Mas a justiça vai ser feita, não com alguém retribuindo a idéia batendo neles ou coisas do tipo. A capacidade de separar esse instinto animal do racional, de perceber aonde a violência leva nesses casos é que separa os idiotas, os tuberculos e salsinhas de quem realmente cresce, amadurece e se dá bem na vida.

As vezes fica em mim uma sensação de interrogação. Será que bater neles não resolveria? Resolveria. Mas a que custo? As vezes me passa a idéia pela cabeça de que se ninguém está vendo o que estamos fazendo, para quê vamos nos preocupar com isso? Olho por olho. Dente por dente.

É, parece ideial… Mas no final você se deixou levar pela raiva. Só foi dessa vez? Me poupe. Pra tudo que se faz ha uma resposta. Sempre ha. No final todos acham que estão certos e quem ganha sai o correto, o dono da caça, o mais forte do grupo. Que bonito não? Assim é no reino animal…

Só posso dar um “sinto muito” para essa parte de mim que pensa assim. Eu não sou um animal defendendo um território. Eu tenho uma mente que realmente pensa de forma bem superior que a de um animal selvagem. Se eu não souber usá-la de forma correta e fazer o que meu instinto manda já não vai ser instinto. Vai ser falta de caráter.

O homem não é um ser superior enquanto não perceber que inteligência não é sinal de evolução. Inteligência sem caráter só piora a situação. Aprendi isso em a Viagem de Gulliver, ha muitos anos atrás, na minha infancia quando eu procurava uma resposta para o que me acontecia. Swift estava corretíssimo.